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‘Pokémon Go’ celebra dez anos com sucesso que nem criadores sabem explicar

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) – Em julho de 2017, John Hanke, o CEO da desenvolvedora Niantic, subiu ao palco do Grant Park, em Chicago, para falar com milhares de jogadores que haviam viajado de todos os cantos para o primeiro grande evento do jogo “Pokémon Go”. Ele foi recebido por uma onda de vaias. Os servidores haviam caído, e ninguém conseguia jogar.

Nove anos depois, o mesmo evento na cidade esgotou os ingressos pela primeira vez na história. Em Nova York, fãs de todo o país foram até a Times Square, em uma das celebrações dos dez anos de lançamento do jogo, que já faturou mais de US$ 9 bilhões (R$ 46 bilhões) e conta com uma comunidade que sobreviveu a escândalos, boicotes, uma pandemia e até à venda da empresa que o criou.

Para quem não conhece, os “pokémons” são criaturas fictícias japonesas criadas nos anos 1990 -monstrinhos de bolso que os personagens capturam, treinam e fazem batalhar. A franquia rendeu anime, filmes e mais de R$ 767 bilhões em três décadas, tornando-se a maior propriedade intelectual da história do entretenimento, à frente de “Star Wars” ou do Mickey.

“Pokémon Go” trouxe essas criaturas para o mundo real. Usando o GPS do celular, ele sobrepõe os personagens ao mapa das cidades. Em duas semanas, o jogo se tornou o aplicativo mais baixado da história. Cenas de pessoas correndo pelas ruas em busca de “pokémons” raros se tornaram normais. Nem Hanke conseguia compreender tamanha euforia.

Pesquisadores da Universidade Purdue estimaram que o jogo causou, apenas nos Estados Unidos, 145 mil acidentes de trânsito adicionais nos meses seguintes ao lançamento.

Dez anos após a febre mundial, o jogo de caçar monstros usando o GPS já não arrasta multidões para lugar nenhum. Ainda assim, continua vivo de um jeito que nem os criadores conseguem explicar.

A Nintendo, uma das proprietárias da franquia Pokémon, tentou emplacar outros jogos de celular com a mesma mecânica, mas com outros personagens. “Dr. Mario World” e “Dragalia Lost” foram encerrados; “Super Mario Run” continua disponível, mas nunca chegou perto do mesmo impacto.

A própria Niantic, desenvolvedora de “Pokémon Go”, também tentou repetir o sucesso. Em 2019, lançou “Harry Potter: Wizards Unite”, com a mesma tecnologia e a mesma lógica de sair andando pela cidade com o celular na mão. O jogo acabou dois anos e meio depois, arrecadando míseros R$ 200 milhões, enquanto, no mesmo período, “Pokémon Go” faturava cerca de R$ 5,6 bilhões por ano. A Niantic tentou novamente com jogos de “Transformers” e da NBA. Todos fracassaram.

A primeira grande crise de “Pokémon Go” veio em 2017. O Go Fest de Chicago evidenciou as quedas de servidores, desastres comuns durante os dois primeiros aniversários, o que gerou uma série de momentos constrangedores para a empresa.

Outras tempestades vieram. A Niantic enfrentou denúncias de que o aplicativo coletava dados excessivos dos usuários, incluindo acesso completo às contas do Google de quem fazia login. O episódio gerou cobertura mundial e uma onda de desinstalações.

Entre 2018 e 2019, a empresa começou a mudar como o jogo funcionava. Introduziu sistemas de amizade, trocas entre jogadores e batalhas em equipe. Grupos de WhatsApp passaram a organizar encontros em praças, eventos e os próprios calendários da comunidade.

Quando a pandemia fechou o mundo, em 2020, “Pokémon Go” fez exatamente o oposto do que sua proposta sugeria -passou a funcionar de dentro de casa. A Niantic criou batalhas coletivas a distância e ampliou o raio de interação dos jogadores. Quem tinha mobilidade reduzida, morava em cidades pequenas ou simplesmente não tinha tempo para sair, passou a jogar pela primeira vez. A medida salvou o jogo financeiramente, mas criou um problema para o futuro.

Em 2023, a desenvolvedora decidiu reverter parte das facilidades criadas durante a pandemia. O argumento era que “Pokémon Go” deveria voltar à sua essência de explorar o mundo real. Muitos não gostaram. O movimento #HearUsNiantic -ouça-nos, Niantic- tomou as redes sociais.

Dois anos depois, outra mudança colocou os jogadores em alerta. No ano passado, a Niantic vendeu sua divisão de jogos para a Scopely por R$ 3,5 bilhões. A notícia foi recebida com a ansiedade habitual de uma comunidade acostumada a desconfiar das decisões da empresa.

A nova gestão preferiu agir com cautela. Priorizou corrigir bugs antigos, melhorar a interface e evitou mudanças bruscas que pudessem afastar os jogadores. Mas há um desafio que nenhuma troca de comando consegue resolver.

A Niantic não pode inventar personagens. As criaturas são criadas pela Game Freak, no Japão, para os jogos de console, que costumam apresentar cerca de cem novos monstrinhos a cada três ou quatro anos.

O jogo para celular só pode utilizar o que já existe. Em novembro do ano passado, restavam apenas 99 “pokémons” inéditos para serem adicionados ao jogo. Das 1.025 criaturas existentes, 926 já estavam lá.

Sem poder inovar, a saída tem sido reciclar os antigos. Passaram a lançar versões com cores diferentes dos mesmos Pokémon, formas regionais -essencialmente o mesmo monstrinho com outra aparência-, e fantasias, como o Pikachu de chapéu de festa ou vestido de escavador, criado em parceria com um museu de fósseis de Chicago.

Enquanto continuam na caçada imaginária, os jogadores vivem uma preocupação: a ex-dona Niantic fechou um acordo com o serviço de inteligência americano para treinar seus drones para agir em locais em que o GPS não funciona, como na Ucrânia. Nove anos de escaneamentos do game mobile viraram dados de guerra.

Assim, enquanto cortam o bolo de uma década, jogadores de “Pokémon Go” têm boas razões para ficarem apreensivos sobre a viabilidade de uma festa de 20 anos do jogo.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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