CRISTINA CAMARGO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No palco, um monitor de TV reproduz cenas eróticas que remetem ao início de “Paixão Simples”, livro em que Annie Ernaux descreve sem pudores a radicalidade de uma relação amorosa. Em seu primeiro solo, Aline Fanju desce e senta na plateia do teatro para ver as imagens ao lado do público, por alguns segundos.
A primeira adaptação brasileira para o teatro de um livro da escritora francesa usa o recurso da quebra da quarta parede como alívio para a obsessão da personagem por A., um homem estrangeiro, mais jovem e casado. Ela dedica a ele todos os seus pensamentos enquanto aguarda a próxima tarde tórrida na cama com o amante.
Fanju é a narradora, a mulher apaixonada e, ao mesmo tempo, a atriz que vive o sonho de um monólogo planejado para ela, informação que é compartilhada com a plateia no início do espetáculo.
O convite veio do produtor Pablo Sanábio, que idealizou um solo para a amiga. Os dois iniciaram a maratona de leituras até encontrar “Paixão Simples”.
“Uma mulher em idade madura falando de desejo, de paixão, de resgate de identidade. É um assunto universal, atemporal, que arrebata todas as gerações”, diz Fanju.
A negociação com os representantes de Ernaux durou seis meses. A montagem foi autorizada a cortar e organizar trechos do texto, mas proibida de mudar qualquer palavra da tradução ou de incluir novas passagens.
No espetáculo, há trechos lidos em off e outros reproduzidos em um painel no palco. A própria escritora, prêmio Nobel de Literatura em 2022, aparece na encenação, em um quadro pendurado no quarto em que a personagem espera um telefonema de A. e vive anestesiada por uma mistura de lembranças e expectativas.
No auge da paixão, todo o resto perde o sentido para a mulher: os filhos já crescidos, os concursos bem sucedidos, as viagens para longe. As chateações do cotidiano também parecem sem importância. A escritora não dá bola para uma greve de dois meses dos Correios, perdoa o mau humor de funcionários de repartições e encara os congestionamentos como algo banal.
O que importa são as recordações das tardes de palavras quentes e carícias sensuais e os preparativos para o próximo encontro. Quem nunca?, pergunta a atriz e rapidamente encontra uma cúmplice na plateia. Com outra, ela divide uma dose de uísque, puro e sem gelo, em uma espécie de ritual empático entre mulheres que amam demais -pelo menos por um tempo.
“‘Paixão Simples’ é sobre o feminino em sua totalidade. Não é só a história da Annie, personagem do livro, não se resume à experiência individual de uma mulher específica. É sobre uma espera que atravessa os séculos. Uma espera ancestral, avassaladora, muitas vezes injusta, que na encenação ganha uma perspectiva alegórica que só o teatro pode oferecer”, diz a diretora, Alessandra Colasanti.
Na alegoria, o telefone vermelho, que pode tocar a qualquer momento, é manipulado como um objeto erótico. Para ouvi-lo, a personagem abre mão de usar os barulhentos aspirador de pó e secador de cabelo. O arrebatamento também a leva a adiar o banho após o sexo, para carregar um pouco do homem em seu corpo depois que ele vai embora.
A dramaturgia é fiel a Ernaux, mas isso não impede a encenação de ter porções de brasilidade na trilha sonora. “Savage Funk”, de Anitta, dá o tom da atmosfera sexual no quarto da escritora. “Sufoco”, canção inesquecível na voz de Alcione, resume perfeitamente o desespero de ver o homem amado vestir a roupa, calçar os sapatos e bater a porta, na despedida.
Uma das preocupações da montagem é a de abordar as vivências sem julgamentos. “Paixão Simples” é de 1991 e foi relançado no Brasil pela editora Fósforo em 2023. O estilo direto contribui para que a história seja contada sem que a relação seja vista como uma disputa entre o vilão e a mocinha -e vice-versa.
Como no caso real, na peça a busca pela perfeição amorosa também é transformada em literatura, em uma espécie de salvação após o período de desejo insano.
“Graças a ele, eu me aproximei do limite que me separa do outro, a ponto de às vezes imaginar que iria chegar do outro lado”, diz um dos trechos do livro.
PAIXÃO SIMPLES
– Quando Até 3 de outubro. Sextas e sábados, às 20h. Domingos, às 18h.
– Onde Sesc Santana
– Preço 60 (inteira), R$ 30 (meia-entrada) e R$ 18 (credencial plena)
– Classificação 16 anos
– Autoria Baseado no livro de Annie Ernaux
– Elenco Aline Fanju
– Produção Pablo Sanábio
– Direção Alessandra Colasanti
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