(FOLHAPRESS) – Na plateia, uma risada fora de hora é rapidamente engolida porque o espectador do ensaio aberto percebe, no meio da cena, a virada na história contada em “Inter Alia”, peça protagonizada por Drica Moraes e dirigida por Rodrigo Portella, agora em cartaz no Teatro Vivo, em São Paulo.
Não dá para culpar o homem que riu alto na apresentação para uma plateia de convidados, no sábado (25). O espetáculo é realmente leve e divertido na primeira parte, apesar de a juíza Jessica, interpretada por Moraes, acumular funções profissionais, maternas e domésticas.
Ela é multifuncional, mas está em plena ascensão no trabalho, é correta, empática com as mulheres, acolhedora, tem amigas para dançar e trocar confidências e até transa com o marido, Michael, papel de Caco Ciocler.
Com o filho jovem, Harry -Caio Cesar Passos-, a relação é típica. O garoto não quer muita conversa, acha enfadonhas as preocupações da mãe e é tratado como “brother” pelo pai, mais desencanado e menos comprometido com tudo ao redor.
O elenco aparece no centro do palco cru, sem nenhum cenário, no início da peça, e logo Jessica começa a contar a história da reviravolta em sua vida. É uma narrativa direta, no estilo de Portella, diretor premiado de sucessos como “Tom na Fazenda”, “(Um) Ensaio sobre a Cegueira”, “O Motociclista no Globo da Morte” e da montagem mais recente de “Fim de Partida”, de Samuel Beckett.
Enquanto ela fala, os dois homens do elenco montam, aos poucos, o cenário. O palco é transformado em um misto de tribunal e casa da família. Ali, Jessica vive as dores e as delícias de sua rotina, com participações esporádicas do marido e do filho, coadjuvantes na trama.
Drica Moraes domina o espaço com o novo texto da australiana Suzie Miller na ponta da língua e quase sem pausa para respirar. Ela julga, canta, dança, sensualiza, dá atenção ao filho, sabe que o sucesso pode incomodar o marido, prepara um jantar especial, orienta e torce pela felicidade do rebento.
A virada, na segunda metade do espetáculo, acontece após o envolvimento do jovem em um crime sexual e vem acompanhada de incertezas e questionamentos. É uma vida que desmorona e ganha ares de terror diante do público, a essa altura conquistado pelo carisma de Jessica e sua intérprete.
Portella optou por recortar o texto, que não é apresentado de forma linear e tem flashbacks o tempo todo, com metáforas para o filho que escapa do controle da mãe. Há a fatídica culpa materna e os conflitos éticos entre a profissional competente e ocupada e a mulher protetora da cria.
O universo jurídico e feminista é o mesmo de “Prima Facie”, a peça de Miller que faz sucesso mundial. No Brasil, o solo de Débora Falabella já levou cerca de 150 mil pessoas ao teatro desde a estreia, há dois anos. A dramaturga, uma ex-advogada criminalista, escreve a partir de casos de violência sexual observados no sistema judicial.
“O mundo das mães é um mundo de perguntas. A gente não tem resposta para nada. Vivemos com as dúvidas de uma maneira às vezes paranoica”, diz Moraes, mãe de Mateus, um adolescente de 17 anos.
Apesar de reconhecer as feridas deixadas na geração de jovens que passou pela pandemia e lida com o universo digital o tempo todo, a atriz afirma que sua tendência é acreditar que tudo dará certo. Ela vivencia uma maternidade baseada no afeto e nas conversas -as que acontecem e as que ficam nas tentativas.
No caso da juíza, há a compreensão profunda sobre o funcionamento das leis e como as mulheres podem ser vítimas até mesmo quando não são violentadas, como é o caso da mãe de um estuprador.
“Essa mulher sabe que as leis são escritas por homens para contemplar um mundo masculino, branco e heterossexual”, afirma a atriz sobre as dúvidas de Jessica em relação ao filho.
Moraes também enxerga na dramaturgia um feminismo sem o dedo na cara dos homens, com o público sendo chamado para uma conversa sobre o assunto colocado em pauta no palco. “Ninguém tem razão aqui. É a impermanência das ideias mesmo.”
Ao ler o texto, Portella diz ter se interessado especialmente pela dimensão narrativa do espetáculo, com a juíza comentando o tempo todo o próprio pensamento e os sentimentos em relação ao que está acontecendo.
O contraponto masculino também é citado pelo diretor como um diferencial. Em parceria com Mina Quental, ele criou um cenário que remete às construções e desconstruções dos homens em um mundo em transformação, mas ainda muito misógino e violento.
Apesar da aparência juvenil, Caio Cesar Passos tem 30 anos e precisou acessar lembranças do passado para construir o personagem marcado por heranças do patriarcado decadente.
“Olho para os meus 18 anos e vejo o quanto também engoli certas coisas”, diz sobre a fase de descobertas e vivências na família e entre os amigos.
No caso dele, há uma particularidade: os amigos do colégio optaram pela carreira militar, enquanto ele foi para o teatro. Lidou com os estigmas que acompanham os artistas iniciantes em um ambiente conservador, mas seguiu em frente.
Portella escolheu o ator após assistir ao espetáculo “Feio”, da companhia carioca Dobra, sobre um casal surpreendido por uma descoberta nas imagens de um exame. Passos interpreta a mãe.
Uma década após a saída da escola, ele viu os amigos de infância na plateia pela primeira vez. Os militares sentaram na primeira fila e, no final, elogiaram a atuação.
No texto original de “Inter Alia”, os dois homens da história tinham uma participação mais periférica do que na montagem de Portella, que contou com o dramaturgismo da escritora e jornalista Bianca Ramoneda.
Caco Ciocler afirma ter ficado comovido com o acúmulo de afazeres da personagem feminina, algo que é explicitado na dramaturgia. “Acabei de ler e disse ‘que maluquice é ser mulher, eu não tenho que dar conta de metade que ela tem’.”
Essa consciência o levou ao desejo de ocupar um lugar de serventia, concretizado no palco com o vai e vem dos dois homens na montagem e desmontagem do cenário.
O ator é sincero ao falar sobre a sensação de falhar como pai e padrasto, às vezes na tentativa de ser muito legal, como é o caso de seu personagem, um homem que busca novos caminhos e confessa não saber para onde ir. “É um desnudar muito bonito e interessante na peça.”
Essa exposição de sentimentos fez parte do processo artístico liderado pelo diretor, que estimula a troca de experiências. Dentro e fora de cena, o trio de atores reflete sobre as complexidades das relações familiares.
“Não é que a gente esteja representando uma dúvida, a gente está botando a nossa dúvida em jogo”, afirma Ciocler em relação à acusação contra o filho fictício.
O programa da peça inclui um guia para relações mais humanas, com informações sobre violência sexual, masculinidades e caminhos para a mudança, produzido pelo escritório de advocacia Tozzini Freire.
O guia explica o que é “inter alia”, uma expressão jurídica que significa “entre outras coisas”. Em processos judiciais, indica que há mais fatos a serem considerados.
Na peça, é um chamado para prestar atenção na pressão que os jovens vivem entre a masculinidade tradicional ainda presente e a necessidade de romper a dinâmica, discordar dos amigos e interromper o ciclo de violência física e psicológica contra as mulheres.
INTER ALIA
– Quando Sex. e sáb., às 20h; dom., às 18h. Até 20 de setembro
– Onde Teatro Vivo – av. Dr. Chucri Zaidan, 2.460, São Paulo
– Preço De R$ 50 a R$ 200
– Classificação 12 anos
– Autoria Suzie Miller
– Elenco Drica Moraes, Caco Ciocler e Caio Cesar Passos
– Direção Rodrigo Portella







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