BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O senador Flávio Bolsonaro (PL) enviou um documento ao USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) no qual afirma que a confirmação do tarifaço de 25% proposto pelo órgão daria ao governo Lula (PT) uma “vitória política”.
“As tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que defendem uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, disse Flávio.
Com base nesse argumento, o senador pediu ao USTR que suspenda a aplicação de sobretaxas ao país, ao menos até a realização das eleições presidenciais no Brasil.
“Os Estados Unidos têm um interesse consolidado em não tomar medidas econômicas de grande porte contra uma democracia estrangeira nas semanas anteriores a uma eleição nacional disputada, onde a ação corre o risco de ser retratada […] como uma tentativa de influenciar o resultado”, escreveu o senador. “Adiar a implementação até depois das eleições elimina essa caracterização.”
O anúncio das novas tarifas já foi explorado contra Flávio pelo presidente Lula (PT), que tem adotado o mote da soberania nacional. O petista também tem se colocado como defensor do Pix, um dos alvos de ataques dos EUA.
O senador submeteu comentários escritos no âmbito da investigação comercial iniciada pelo USTR com base na Seção 301. Ele também se inscreveu para falar na audiência pública desse processo que deve ocorrer no dia 7 de julho, em Washington.
O relatório enviado por Flávio tem 19 páginas de argumentação, além de diversos anexos. Logo no início, ele diz que Lula se fortalece eleitoralmente quando Trump ameaça tarifar o Brasil.
“Pesquisas de opinião no Brasil mostram que a posição eleitoral do atual governo se fortaleceu justamente nos períodos em que a pressão exercida pelas tarifas americanas foi mais intensa. A pesquisa nacional mais recente coloca o atual governo com 39% das intenções de voto contra 29% do autor [do documento, Flávio] em um cenário de primeiro turno, além de indicar que a aprovação do governo subiu desde abril de 2026 e que sua vantagem em um eventual segundo turno aumentou”, diz o senador, no documento.
O parlamentar incluiu no relatório um gráfico de pesquisa de opinião para mostrar que as sobretaxas ajudam Lula eleitoralmente. Além de um “ativo político”, Flávio afirma que Lula adota uma postura de confrontação com os EUA por “inclinação ideológica”.
Flávio faz referência ainda ao primeiro tarifaço imposto por Trump contra o Brasil, de 50%, adotado em meio a atuação de seu irmão, o então deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), para que os EUA pressionassem os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) no processo judicial contra Jair Bolsonaro.
À época, tanto Eduardo como Flávio condicionaram o fim do tarifaço à anistia a seu pai.
Agora, o pré-candidato à Presidência do PL diz que essa medida de pressão foi ineficaz e que não alterou decisões do tribunal contra Bolsonaro e na ação do Marco Civil da Internet.
Ele lembra ainda que o primeiro tarifaço e a abertura da investigação comercial foram justificadas por Donald Trump como resposta a uma “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Para Flávio, as medidas adequadas que o governo Trump deveria adotar são a suspensão de vistos de autoridades brasileiras e sanções com base na Lei Magnitsky, como as aplicadas ao ministro do STF Alexandre de Moraes no ano passado.
O governo Trump anunciou no início do mês a conclusão da investigação da seção 301 contra o Brasil e propôs novo tarifaço de 25% sobre bens importados do país. A decisão final sobre aplicação ou não cabe a Trump, após a consulta ao setor privado.
Esta investigação foi instaurada em julho de 2025. O governo americano incluiu no processo a análise de práticas em diferentes frentes: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas consideradas “injustas ou preferenciais”; leis anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal.
Os alvos vão desde queixas antigas de Washington, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até o Pix. Nesse capítulo, o governo Trump acusou o Banco Central de favorecer o Pix de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento, numa referência a empresas de cartão americanas.
O governo Lula fez da defesa do Pix uma das principais bandeiras para desgastar Flávio. Ao tratar do tema no documento submetido ao USTR, o senador defende o sistema de pagamentos e diz que ele “é uma das realizações mais emblemáticas do governo Jair Bolsonaro”.
Para atender Washington, o senador defende a aprovação de uma lei que proíba a interconexão do Pix com “arranjos não ocidentais de liquidação transfronteiriça”, numa referência à China.
Políticos do centrão e mesmo aliados de Flávio avaliam que a tarifa é um revés para a campanha presidencial do senador, que se tornou alvo do governo Lula desde o anúncio da medida, ocorrido pouco após visita do parlamentar à Casa Branca.
O senador, por sua vez, tem dito que pediu a Trump para abandonar novas tarifas. Ele tentou ainda resgatar a pauta das facções criminosas, que lhe foi benéfica politicamente.
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