NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) – Com alguma frequência, o presidente Donald Trump diz ao público que conduzir uma política imigratória agressiva, baseada em prisões, deportações e fechamento de fronteiras, é necessário para proteger a segurança dos Estados Unidos.
É um discurso tradicional do Partido Republicano há pelo menos duas décadas, que vez ou outra aparece também verbalizado por políticos democratas. É, também, um reflexo permanente dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 executados pela Al Qaeda.
Com o passar dos anos e o distanciamento desse episódio que mudou o país, a afirmação de que as ações do ICE, a agência de imigração americana, são uma consequência direta dele pode causar estranhamento. Mas é isso que mostra a história.
“[O 11 de Setembro] foi um divisor de águas na política de imigração dos EUA”, afirma a advogada Elizabeth OuYang. Professora da Universidade Columbia, em Nova York, ela ensina a seus alunos exatamente esse tema: as políticas migratórias criadas após o 11/9.
“Mesmo antes do 11/9, já havia um começo de mudança, um novo direcionamento para a repressão à imigração”, prossegue OuYang.
“A política de imigração nos EUA foi, até tempos recentes, um equilíbrio entre a reunião familiar e a repressão. Mas, como temos visto cada vez mais, e muito definitivamente depois do 11 de Setembro, houve uma ênfase crescente na repressão.”
Hoje um dos temas de maior relevância nacional devido a seu uso exacerbado pelo governo Trump, o ICE foi criado em 2003 como parte de uma reorganização da política americana no período da chamada Guerra ao Terror, quando a repressão aos imigrantes, notadamente de países islâmicos, aumentou.
A agência fica no guarda-chuva do Departamento de Segurança Interna junto a outro de seus braços, a agência da fronteira (CBP), que, como o próprio nome diz, atua nas fronteiras com o México e o Canadá -sob Trump, porém, passou também a atuar dentro do país, e é responsável por prender e deportar imigrantes em situação irregular.
Como diz a professora OuYang, por muito tempo a política americana teve dois braços; este, da repressão, mas também o da reunião familiar: há 50 anos foi criada a política que permite que cidadãos e portadores de green cards patrocinem outros parentes para viverem nos EUA.
Trump faz duras críticas a essa medida. E, como se sabe, investe na outra moeda da política imigratória americana, a repressão.
Se é verdade que o ICE e agências relacionadas surgiram em um momento de maior repressão e fiscalização da imigração sob o pretexto de prevenir ataques terroristas -e muitas vezes sob o manto da generalização sobre os imigrantes muçulmanos- também é verdade que a guinada começou um pouco antes.
Nos anos que precederam o 11/9, a política americana começava a se enquadrar no padrão conhecido como “prevenção por meio da dissuasão”, ou PTD, como é chamado no país. A ideia era impedir que os imigrantes chegassem aos EUA, em vez de concentrar os esforços em prendê-los uma vez que estivessem em território nacional.
A política foi institucionalizada pelo governo do democrata Bill Clinton em 1994, apenas um ano após uma experiência do tipo, mais localizada, ser feita em El Paso: os agentes de migração enviavam grandes contingentes para partes povoadas da fronteira para tentar assustar os imigrantes e, assim, fazer com que buscassem caminhos onde a chance de sobreviver era menor, como desertos e montanhas.
Como a história mostrou, as pessoas seguiram tentando imigrar, independentemente da política de dissuasão. Neste caminho, muitos morreram. Dados da ONU mostram que 6.760 imigrantes morreram tentando cruzar a fronteira com o Texas desde 2014.
“A ênfase dada no período pós-11 de Setembro à segurança nacional e à chamada ameaça à segurança nacional foi usada para justificar praticamente tudo, desde restrições às liberdades civis a políticas de exclusão”, afirma OuYang.
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