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Em Veneza, ‘Musk’, documentário ambicioso, faz público temer pelo futuro

TETÉ RIBEIRO
VENEZA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – Assim que decidiu que seu próximo projeto seria este documentário, em 2019, o cineasta norte-americano Alex Gibney começou pelo começo -pedindo uma entrevista com o objeto de seu próximo mergulho cinematográfico, Elon Musk. A resposta veio pelo Twitter, rede social que ainda não havia sido comprada por Musk, e era clara, curta e grossa. “Gibney is a douche”, algo como Gibney é um babaca, em linguagem bem mais grosseira.

Para contornar a falta de respostas às perguntas do cineasta, Gibney criou um avatar de Musk, como um personagem de videogame, que lembra o bilionário (trilionário?) sul-africano, mas é bem mais agradável de se ver, bonitão até, e que fala frases ditas por ele na vida real, em diversas entrevistas ao longo de sua carreira, desde que surgiu como um nerdão ousado e talentoso como tantos outros do Vale do Silício, no meio dos anos 1990. Curiosamente, o jovem Musk era calvo desde muito cedo, com o topo da cabeça já visível por baixo dos fios claros e ralos, muito diferente do topetão esvoaçante que ele exibiu várias vezes mais recentemente.

Uma das afirmações mais alarmantes do empresário, engenheiro, inventor e sabe-se lá o que mais, é que ele não tem certeza de que a gente vive mesmo na realidade, e não em uma simulação. Tipo o Neo, personagem de Keanu Reeves em “Matrix”, só que, na versão de Musk, ele não é “The One”, o escolhido, que vai salvar a humanidade de servir como combustível para robôs de uma grande corporação que destroi o mundo. Nada disso. Ele quer ser o cara que inventa a corporação que domina o planeta. E depois o povoa só com seus descendentes, projeto este que parece bem adiantado, com seus 14 filhos conhecidos.

Ou 13, se a gente descontar a filha trans, Vivian Wilson, de 24 anos, que mudou legalmente seu gênero, seu sobrenome, e é dada como morta por seu pai, que só se refere a ela pelo nome de nascimento. Vivian é uma das cinco primeiras “crias” de Musk com sua primeira mulher, a escritora canadense Justine Musk, que teve gêmeos e trigêmeos em menos de dois anos, entre 2004 e 2006. Antes disso, o casal perdeu o primeiro filho, Nevada, nascido em 2002 e morto com 10 semanas de vida.

A morte de Nevada, aliás, é o primeiro drama da vida pessoal que acontece em esfera pública de Elon Musk e tem sua versão contestada por sua ex-mulher no documentário apresentado em Veneza. Na época da morte do bebê, em 2002, Musk escreveu no Twitter que o filho morreu em seus braços. Mas Justine conta, no documentário, que na verdade era ela que estava com o bebê no colo. Esse é um dos momentos mais emocionantes e reveladores do filme, ou, pelo menos, um dos poucos que evoca uma emoção normal, humana, mesmo que incompreensível. Ali está uma mãe, chorando a morte de um filho, e contestando a versão do pai egocêntrico.

No resto do filme, que se debruça sobre todos os aspectos da vida e da obra de Elon Musk, o que o público sente é uma mistura de desprezo, revolta e medo do futuro, além da certeza de termos falhado terrivelmente como sociedade, se este é o sujeito que acumulou a maior fortuna. Musk tem satélites que rondam várias vezes por dia toda a superfície da Terra, e são capazes de conectar, mas também espionar, todos os habitantes do planeta.

A história da vida de Elon segue uma trama quase arquetípica: um menino esquisitão que lia HQs e jogava videogame obsessivamente vira um homem poderoso e se transforma em um arqui vilão sem escrúpulos. Durante sua infância, na África do Sul, apanhava com frequência de outras crianças e, quando chegava em casa, ainda era repreendido por seu pai, Errol Musk, um tipo valentão que gosta de holofotes e trabalhou como engenheiro para os militares de seu país, teve negócios imobiliários e chegou a vender esmeraldas da Zâmbia. No filme, Errol Musk lembra de ter atirado e matado três homens negros que ameaçaram invadir sua casa nos anos 1980. E dá um conselho para os espectadores: “não apostem contra Elon se não quiserem perder”.

No Festival de Veneza, onde foi apresentado fora de competição, o documentário de Alex Gibney foi representado por seu diretor e pelos produtores, mas também teve a presença da ex-influenciadora de ultra direita norte-americana Ashley St. Clair, mãe de um dos filhos do empresário, que dá entrevista no filme e contou, presencialmente, que Musk chegou a oferecer US$ 40 milhões para que ela não falasse. Seu relacionamento com o sul-africano foi pontual, ele se aproximou dela pelas redes sociais e de cara sugeriu que tivessem um filho. Curiosa pela figura do empresário, foi sendo envolvida pela maneira ‘maior que a vida’, ‘larger than life’, como se diz em inglês, dele se portar, viajando de avião particular pra lá e pra cá e gastando fortunas para conseguir o que quer. St. Clair conta que Musk se refere aos dinheiros que gasta com subornos, chantagens e trapaças em geral como ‘cenouras’, como se as pessoas fossem coelhos em uma corrida, e fossem correr mais rápido e com mais dedicação se tivessem mais cenouras balançando em sua frente.

O documentário, narrado pelo diretor em alguns momentos, faz uma comparação de Elon Musk com o personagem de um filme inglês de 1936 chamado “O Homem Que Fazia Milagres”, dirigido por Lothar Mendes e Alexander Korda, sobre um homem comum, medíocre, que, num ato aparentemente aleatório, recebe poderes divinos e consegue tudo que quer. Quando percebe que pode realizar milagres, vai aumentando o escopo de suas vontades, se declara o Rei do Mundo, mas acaba destruindo o planeta quando decide que a Terra não vai mais rodar ao redor do Sol. O filme é uma comédia. O documentário, não.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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