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Taís Araujo vive no palco as aflições e os desejos de uma mulher em metamorfose

(FOLHAPRESS) – Um dia, Mayah acorda e decide fugir da própria realidade. Após terminar um relacionamento falido e pedir demissão de uma empresa racista, ela aluga um apartamento tão pequeno quanto a vida que deixou para trás.

É nesse espaço estreito e apertado que Mayah se lança em uma jornada de amadurecimento e autodescoberta. Tal como a Alice escrita por Lewis Carroll, a personagem vivida por Taís Araujo na peça “Mudando de Pele” se vê obrigada a diminuir para finalmente conseguir crescer.

Dirigido por Yara de Novaes, o espetáculo estreia, nesta quarta-feira (3), no Sesc 14 Bis, na região central de São Paulo, após uma temporada bem-sucedida no Rio de Janeiro.

Inspirado no premiado monólogo “Shedding a Skin”, da dramaturga britânica Amanda Wilkin, a produção rompe com narrativas que reduzem pessoas negras à violência do racismo. No lugar da dor ou da morte, o que vemos em cena é uma mulher em metamorfose.

“Já se falou muito sobre morte e sofrimento. Está no nosso histórico. Mas a gente não é só isso”, diz Araujo. “O absurdo da escravidão faz parte da nossa história, mas não define a gente. Eu me recuso a ser apenas isso.”

Filha de imigrantes, Mayah trabalha em uma empresa formada majoritariamente por funcionários brancos. “Ela não pertence àquele ambiente”, diz Araujo. “Mas também não se reconhece no lugar de origem de seus pais.”

A sensação de não pertencer a canto algum, aliás, é um relato frequente entre pessoas negras que ascenderam socialmente. Por vezes, elas se distanciam do ambiente de onde vieram, mas não se encaixam no espaço em que chegaram.

A crise existencial de Mayah brota das frestas desse não lugar.

A exemplo de sua personagem, a atriz já viveu momentos limítrofes. Um deles aconteceu em 2009, quando encarnou uma das célebres Helenas de Manoel Carlos, na novela “Viver a Vida”. À época, a atriz sofreu uma série de críticas por sua atuação e chegou a achar que a carreira na televisão havia acabado.

Outro momento foi no ano passado, enquanto vivia Raquel no remake de “Vale Tudo”, de Manuela Dias. Em entrevistas, a atriz já disse ter ficado frustrada com mudanças que aconteceram em relação à primeira versão.

A alteração mais polêmica foi o fato de a cozinheira ter voltado a vender sanduíches na praia após a falência de sua empresa -algo que não estava na obra original, de 1988. “Fui convidada a fazer uma personagem, e eu sabia a história dela. E, de repente, me apresentaram outra; aí eu achei esquisitíssimo aquilo”, afirmou ao programa Sem Censura.

À reportagem, porém, Araujo contemporiza. “Eu não posso tirar o brilho do que foi ‘Vale Tudo’ na minha vida. É um dos meus trabalhos mais importantes.”

Assim como aconteceu após o turbilhão de “Viver a Vida”, a atriz voltou para a ribalta após o fim de “Vale Tudo”. “Eu costumo dizer que o teatro é um grande professor. Se você se dedica, ele te devolve”, diz a artista. “Para mim, é um lugar regenerador.”

De certa forma, sua nova protagonista busca a cura para um desconforto persistente. “É um incômodo que aparece sem avisar e faz com que ela exploda e decida romper com tudo. Essa é uma peça sobre não se reconhecer dentro de si mesma e precisar se reconstruir.”

O estopim para a mudança acontece quando sua empresa faz uma campanha publicitária pela diversidade. A ideia é reunir os poucos funcionários negros para criar uma fachada inclusiva, algo bem distante da realidade daquele escritório.

Após se recusar a participar da iniciativa, Mayah abandona o emprego e decide dar uma guinada na própria vida. “O olhar da personagem estava fechado e vai se ampliando aos poucos. Ela não só percebe que pertence a uma comunidade, mas que precisa deixar de olhar para o próprio umbigo”, diz Araujo.

Essa reconexão acontece por influência de duas mulheres de gerações diferentes. Kemi é uma colega de trabalho, na faixa dos 20 anos, que ajuda Mayah a lidar com a rotina opressiva. Já Mildred é uma nonagenária que amplia o entendimento da personagem sobre o mundo.

São essas duas relações que estimulam o seu crescimento pessoal, processo evidenciado na cenografia do espetáculo. No começo, a ambientação espelha a atmosfera claustrofóbica e sufocante da realidade de Mayah. Já o figurino é grande demais, de modo que ela parece desajustada na própria pele.

No entanto, à medida que a vida se expande, o seu entorno também parece aumentar. A cenografia quadrada e ordenadora do primeiro ato dá lugar a uma espacialidade circular no decorrer do espetáculo.

Essa estrutura cênica partiu da ideia de circularidade que permeia a cosmogonia de povos do continente africano -para quem o tempo não é uma linha reta, mas uma espiral em que passado, presente e futuro se entrelaçam. É uma ideia que ganhou visibilidade no Brasil em razão de obras como “Performances do Tempo Espiralar: Poéticas do Corpo-Tela”, da ensaísta e dramaturga Leda Maria Martins.

A trilha sonora também remete à ancestralidade africana quando a musicista Layla dedilha o corá -instrumento da África Ocidental semelhante a uma harpa. Dani Nega, diretora musical do espetáculo, também produz efeitos sonoros ao vivo com um notebook. Com isso, unem as pontas de um saber do passado e de uma tecnologia do presente.

“Todo o conceito da peça é baseado na filosofia africana”, diz Araujo. “É um elemento que as pessoas muitas vezes nem sabem que está no espetáculo, mas que elas vão sentir de forma inconsciente.”

Em razão da presença das musicistas, a atriz preferiu definir a peça como um monólogo coletivo. “Todo mundo trouxe uma contribuição real para esse espetáculo, então não seria justo dizer que é um solo só meu.”

Diretora da peça, Yara de Novaes -responsável por outros sucessos recentes, como “Prima Facie”, com Débora Falabella, e “Lady Tempestade”, com Andrea Beltrão- diz que os aspectos musicais são uma forma eficiente de dialogar com o público. “A música atinge as pessoas não pela lógica, mas pelo mistério. Não é à toa que o próprio teatro começou com o coro e com a musicalidade.”

A trilha também confere ao espetáculo uma atmosfera celebrativa, algo que orientou a encenação de Novaes. “Todas as minhas escolhas foram feitas para chegar a um lugar de celebração”, diz ela, acrescentando que o próprio texto aponta para esse caminho. “A dor não é o ponto de partida. Pelo contrário. A peça mostra uma pessoa saindo daquele lugar de opressão e se libertando.”

MUDANDO DE PELE
– Quando Qua. (3), às 20h. De qui. a dom., às 20h. Até 4 de julho
– Onde Sesc 14 Bis – R. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista
– Preço Ingressos esgotados
– Elenco Taís Araujo, Dani Nega e Layla
– Direção Yara de Novaes

Cantora afirmou que o consumo excessivo de bebidas começou a afetar sua rotina durante uma fase intensa da carreira. Em entrevista, ela também relembrou o período em que enfrentou bulimia e falou sobre autoestima e relacionamentos

Notícias ao Minuto | 07:20 – 01/06/2026

Fonte: Notícias ao Minuto

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