(FOLHAPRESS) – O dólar tem perdido força nos mercados internacionais desde o início de 2025, em um movimento explicado principalmente por fatores ligados à economia e à política dos Estados Unidos, segundo relatório do Itaú.
O dólar multilateral, que mede a moeda americana frente às divisas dos principais parceiros comerciais dos EUA, acumula queda de cerca de 9% no período. Desse total, cerca de 4,7 pontos percentuais são atribuídos ao chamado “Sell America”, isto é, ao movimento de aversão a ativos norte-americanos.
Segundo os analistas, outros 3 pontos percentuais se relacionam à percepção sobre a independência do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), e 1,7 ponto percentual, à política monetária do país.
Somados, “Sell America” e Fed, que o relatório associa à erraticidade da política doméstica americana, respondem por cerca de 8 pontos percentuais da queda do dólar.
O modelo, baseado em metodologia do BIS (Banco de Compensações Internacionais), identifica seis choques a partir do comportamento conjunto de dólar, juros, Bolsa, ouro e commodities em períodos específicos, como o “Liberation Day”, quando Donald Trump anunciou o tarifaço contra mais de 180 países, em abril de 2025.
Gabriella Garcia, economista do Itaú Unibanco e autora do estudo, explica que o “Sell America” descreve uma redução ampla da exposição a ativos americanos, e não apenas uma aposta contra o dólar.
“É um trade relacionado a todos os ativos dos EUA em queda. Você vai ter principalmente a Bolsa em queda, só que o juro longo para cima. Então, é no sentido de vender todos os ativos americanos, porque está tendo um aumento da aversão ao risco a todos esses ativos”, afirma Garcia.
Dólar contra diferentes moedas
O relatório usa um índice multilateral, que atribui pesos a cada parceiro comercial dos EUA e inclui moedas de economias emergentes, como o real brasileiro e o yuan chinês.
É mais amplo que o DXY (índice do dólar), um dos indicadores mais acompanhados pelo mercado, que mede a força do dólar ante uma cesta de moedas de países desenvolvidos: euro, iene japonês, libra esterlina, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço.
A composição diferente pode fazer os dois indicadores se comportarem de forma distinta em períodos curtos.
“Às vezes, o dólar pode estar forte contra emergentes, mas não contra desenvolvidos. E aí o DXY vai ser enganoso”, afirma Pedro Schneider, economista do Itaú.
Na janela analisada, porém, os dois apontam na mesma direção: até 28 de setembro, o DXY acumulava queda de 7,55%, ante recuo de cerca de 9% do dólar multilateral.
Independência do Fed
A percepção sobre a independência do Federal Reserve aparece como outro componente relevante para a queda do dólar. O relatório estima que esse fator tenha respondido por cerca de 3 pontos percentuais da desvalorização da moeda desde o início de 2025.
As preocupações aumentaram diante de episódios que colocaram em dúvida a autonomia do banco central.
Em janeiro deste ano, procuradores federais dos Estados Unidos abriram uma investigação criminal contra o então presidente do Fed, Jerome Powell, sobre a reforma da sede da instituição em Washington. Em vídeo, Powell atribuiu o inquérito à pressão do governo Trump sobre a política de juros.
Agentes de mercado também chegaram a considerar a possibilidade de o governo americano retirar diretores do conselho de governadores do Fed.
A questão chegou à Suprema Corte, mas não avançou, o que contribuiu para reduzir a preocupação com a autonomia da instituição, segundo Pedro Schneider, economista do Itaú.
O estudo aponta que esse episódio chegou a pesar sobre os ativos americanos, mas perdeu força depois que o Fed manteve sua atuação independente e elevou os juros.
“O presidente do Fed, escolhido pelo Trump [Kevin Warsh], subiu os juros. Isso foi uma métrica relevante ali de credibilidade, de manutenção da independência do Fed”, diz Schneider.
Com isso, também se dissipou parte do movimento provocado pelas dúvidas sobre o Fed na curva de juros, que chegou a somar cerca de 30 pontos-base no auge das ameaças de Trump.
O mercado havia considerado que as pressões poderiam impedir uma alta das taxas, mas a decisão do banco central fez esse choque perder força.
Juros, Treasuries, Bolsa e ouro
A curva de juros americana também mudou. A diferença entre as taxas dos Treasuries de dez e dois anos, que indica quanto mais retorno o mercado exige para emprestar por prazos mais longos, subiu cerca de 10 pontos-base desde janeiro de 2025, depois de chegar a abrir aproximadamente 50 pontos-base em determinado momento.
Segundo o Itaú, o “Sell America” contribuiu com cerca de 20 pontos-base para essa maior diferença, e a inteligência artificial, com outros 20, por elevar a expectativa de crescimento e de investimentos nos EUA.
O choque de commodities, por outro lado, teve efeito contrário, de cerca de 14 pontos-base: preços mais altos pressionam mais os juros curtos, o que reduz a diferença.
O banco afirma, no entanto, que o impacto da IA pode estar subestimado, porque mudanças graduais são mais difíceis de associar a eventos específicos.
As tarifas americanas tiveram papel relevante na queda das Bolsas e de commodities cíclicas, como cobre e petróleo Brent, no início de 2025, associada a uma perspectiva de atividade global mais fraca.
O cenário para o petróleo mudou após o início dos ataques americanos contra o Irã, em 28 de fevereiro.
Para o dólar, porém, a contribuição estimada do tarifaço foi próxima de zero, diz o Itaú.
Já o “Sell America” e a independência do Fed foram importantes vetores de valorização do ouro, que subiu cerca de 50% no período e renovou recordes, refletindo a busca por proteção em um ativo considerado mais seguro diante da maior percepção de risco institucional nos EUA.
O que pode acontecer daqui para frente
Entre os fatores analisados, o “Sell America” continua sendo o que mais pesa sobre o dólar, com uma contribuição de 4,7 pontos percentuais, próxima das máximas observadas em 2025.
Já o efeito relacionado à independência do Fed perdeu força, enquanto a contribuição da política monetária também recuou em relação ao primeiro semestre.
Para Schneider, a preocupação diminuiu, mas o cenário ainda tem “muita incerteza geopolítica”, em parte por uma atuação mais errática dos EUA.
O relatório aponta que os cerca de 8 pontos percentuais ligados à política doméstica poderiam ser revertidos com instituições mais fortes, política econômica mais previsível e sinais mais claros de responsabilidade fiscal.






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