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Acordos secretos: EUA pagaram milhões a países para receber deportados

Desde que o Presidente dos EUA, Donald Trump, regressou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Washington assinou acordos com países da América Latina, África e Pacífico para enviar estrangeiros que não podem regressar legalmente aos seus países de origem.

Esta investigação, conduzida por 72 jornalistas de 23 órgãos de comunicação social de 15 países e publicada pelo consórcio Forbidden Stories, mostra que o Governo dos EUA atribuiu pelo menos 410 milhões de dólares (mais de R$ 2 bilhões) a países anfitriões ou a agências da ONU que facilitam os retornos.

Até 31 de agosto deste ano, pelo menos 25.447 pessoas já tinham sido transferidas para 28 países — das quais cerca de 20 mil só para o México — dentro destes acordos, conforme os dados compilados pelo Forbidden Stories.

Os termos dos acordos variam, principalmente em relação às nacionalidades que podem ser aceitas e aos indivíduos com antecedentes criminais.

Segundo a Forbidden Stories, 49 países africanos foram abordados para aceitar deportados que fossem cidadãos de outros países.

Uma investigação da agência de notícias francesa AFP realizada no início deste ano alertou para a pressão exercida por Washington sobre os países africanos, como ameaças de imposição de taxas aduaneiras (tarifas), suspensões de vistos ou cortes nas ajudas, para os obrigar a aceitar os deportados.

Especialistas jurídicos disseram à AFP que, uma vez ali, estes deportados caíam “num limbo jurídico”, ficando detidos sem acusação em um país desconhecido e, muitas vezes, privados dos seus direitos.

Um setor pouco conhecido do Departamento de Estado, chamado Gabinete de Remigração, criado em maio de 2025, conduziu a maior parte das negociações e pagamentos, de acordo com a Forbidden Stories.

Esse departamento é dirigido por um diplomata de 41 anos chamado Christian Jové Ehrhardt, que trabalhou como representante de segurança em várias embaixadas.

A Forbidden Stories revela, em particular, as suas visitas a Camarões, país com o qual os Estados Unidos assinaram, em dezembro, um memorando de entendimento para a reinstalação de deportados.

Uma semana depois, Washington concluiu com esse país um programa para ajuda médica a cinco anos no valor aproximado de 350 milhões de dólares.

Em janeiro, o Departamento de Estado norte-americano libertou mais 24 milhões de dólares para a agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) em Camarões sob pretexto de querer “facilitar o regresso voluntário de refugiados e combater a imigração ilegal”. Em 14 de janeiro, o primeiro avião que transportava deportados pousou em Camarões.

Outros acordos resultaram em pagamentos diretos a governos.

Foi o caso de Palau, um arquipélago do Pacífico com menos de 18 mil habitantes, que assinou, em dezembro, um acordo para aceitar 75 cidadãos de outros países por 7 milhões de dólares.

No entanto, até à data, apenas três pessoas foram enviadas para lá.

Um outro acordo no valor de 5 milhões de dólares previa a deportação para Essuatíni (antiga Suazilândia), de 160 pessoas a partir de julho de 2025, sendo que, até agora, foram enviadas 32.

Este país da África Austral aceitou receber deportados com antecedentes criminais, de acordo com esta investigação.

Dos quase 380 milhões de dólares atribuídos a estes acordos, os documentos internos do Departamento de Estado mostram que 70 milhões foram atribuídos aos governos signatários, e o restante a organizações internacionais, incluindo 160 milhões de dólares para a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e 110 milhões de dólares para o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).

Estas duas agências da ONU, encarregadas de defender os direitos humanos, têm sido alvo de críticas sobre esta questão, embora o ACNUR tenha declarado ao Forbidden Stories que não fazia parte dos acordos e que estava utilizando os fundos dos EUA de acordo com o seu mandato para “reforçar os sistemas de asilo”.

Um porta-voz da OIM afirmou que a organização tinha conhecimento de que Washington estava utilizando a sua ajuda financeira para promover as “suas próprias prioridades”, mas aceitou o dinheiro dos EUA para poder “melhorar a vida dos migrantes afetados”, garantindo que isso não constituía “uma aprovação” das deportações.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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