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PCC definia financiamento de campanhas políticas de São Paulo, aponta Justiça

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A decisão judicial que autorizou a prisão temporária de Milton Leite (União Brasil), ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, aponta que integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) tinham poder de decisão sobre aportes financeiros em campanhas políticas.

Nesta quinta-feira (17), uma operação da Polícia Civil e Ministério Público cumpre mandados de prisão de 13 pessoas contra suspeitos de envolvimento com a facção criminosa. Segundo a Justiça, as investigações apontaram que 12 das 22 de ônibus de São Paulo são controladas pelo PCC.

Leite é alvo de mandado de prisão temporária determinada pela Justiça. Ele não foi encontrado em seus endereços.

Em conversa com a Folha de S.Paulo por telefone, o ex-vereador afirmou que está fora de São Paulo e que não está foragido. “Vou me entregar em 24 horas. Estou me organizando com meus advogados”, disse. Leite negou todas as acusações, como a de que seria o proprietário da empresa de ônibus Transwolf.

“Nego veementemente, não conheço ninguém do PCC nessa vida. A minha relação com o setor (de transportes) foi institucional, a pedido do então prefeito Bruno Covas, inclusive na negociação de uma greve em 2019. Não há nenhuma hipótese de eu ser dono [da Transwolf]. Nunca tive um carro. A Transwolf tem 600 cooperados, como eu sou dono de um grupo de 600 cooperados?”, disse.

A análise do aparelho celular do investigado José Daniel Satilite, proprietário da empresa Translider, foi um dos pontos centrais da investigação.

“Os diálogos tratariam de questões relacionadas à ‘Sintonia dos Gravatas’ [setor que reúne advogados ligados ao PCC], pagamento de honorários, estratégias jurídicas em favor de integrantes presos, medidas judiciais de interesse da facção e articulações com agentes políticos”, diz o documento.

Nesse contexto são mencionados Danilo Morgado, que foi candidato à Prefeitura de Praia Grande pelo PL em 2024 e hoje concorre a candidato a deputado estadual, e José Ronaldo Alves de Sales, que já foi presidente do PDT no mesmo município e até o ano passado era funcionário da Assembleia Legislativa de São Paulo.

A decisão não detalha em quais campanhas eleitorais teriam ocorrido as tratativas de financiamento.

Sales teria tratado de “campanhas eleitorais, empresas de transporte, venda de ônibus e possíveis facilidades junto ao Detran” em conversas com Satilite. Mensagens encontradas no mesmo celular também fazem “referências a acordos para que empresas passassem a ser administradas por integrantes da organização criminosa após a obtenção de licitações”.

Uma das interlocutoras de Satilite nessas conversas seria esposa de um integrante da cúpula do PCC, segundo a investigação.

A investigação aponta, ainda, diálogos envolvendo suposta fraude em contratos e licitações em Leme, na região metropolitana de Piracicaba.

A Folha de S.Paulo não conseguiu contato com os citados na decisão ou identificou suas defesas até a publicação.

Há referências a pagamentos de vantagens indevidas para a obtenção de uma contratação emergencial de empresa ligada ao grupo investigado.

“Segundo a Autoridade Policial, as conversas revelariam ajuste prévio para direcionamento de certame e tentativa de operacionalizar o pagamento de propina fora do contrato administrativo”, escreve o desembargador.

As ações desta quinta-feira são desdobramento da Operação Decúrio, que em agosto de 2024 prendeu um sócio da empresa de ônibus UPBus e cumpriu mandados de prisão contra outras 19 pessoas em 14 municípios de São Paulo.

À época, a polícia investigava tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes, como infiltração de membros da facção em cargos públicos.

Em fases anteriores, a mesma investigação já resultou em cinco denúncias oferecidas pelo Ministério Público e duas condenações, afirma o desembargador Sérgio Ribas na decisão que autorizou a operação.

TRANSPORTE SOB SUSPEITA

A operação mira suspeitas de que empresas de ônibus que prestam serviço de transporte coletivo em municípios paulistas passaram a ser administradas por integrantes da facção após a obtenção de licitações. Há também suspeita de corrupção de funcionários públicos.

O nome de Milton Leite havia aparecido em um inquérito da Corregedoria da Polícia Militar que apontava supostas conexões com PMs presos por trabalharem na escolta particular de dirigentes da empresa. A decisão do desembargador cita esses depoimentos para embasar o pedido de prisão do ex-vereador.

Em fevereiro, Leite foi chamado de “chefe” pelo sargento da PM Nereu Aparecido Alves em uma mensagem enviada a Cícero de Oliveira, diretor da Transwolff.

Em nota, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirma que a intervenção determinada pela gestão na Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida firme e decisiva para proteger o sistema municipal de transporte. “Desde o início das investigações, a prefeitura agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.”

“A operação realizada nesta quinta-feira (17) reforça a gravidade dos fatos que motivaram as providências adotadas pela Prefeitura. A administração colabora integralmente com o Ministério Público, fornecendo todos os documentos e esclarecimentos necessários.”

Em nota, a Transwolff afirma que Milton Leite nunca teve qualquer participação societária nem “nunca participou da gestão ou ‘deu ordens’ na empresa”.

“O empresário Luiz Carlos Efigenio Pacheco nunca havia sido denunciado em nenhuma outra situação em sua vida até as indevidas imputações da Operação Fim de Linha, que estão sendo combatidas na Justiça, com a defesa alegando sua total inocência”, diz.

A viação afirma ainda que a intervenção da prefeitura “se apoia exclusivamente em questões financeiras, comuns a todas as empresas do setor e plenamente sanáveis, não havendo qualquer fundamento criminal, diferentemente do que havia sido inicialmente aventado na intervenção”.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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