SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em março de 1988, a revista americana Moment publicou uma longa entrevista com o embaixador israelense junto às Nações Unidas. O diplomata, que terminaria seu mandato em poucos dias, queixou-se repetidamente do tratamento que seu país recebia da ONU e lamentou o isolamento pelo qual Israel passava na ocasião graças à invasão e ocupação do Líbano.
“As Nações Unidas vêm sendo utilizadas como instrumento de um antissemitismo universal que não existia antes”, disse o embaixador de 38 anos, o mais jovem a ocupar o cargo até então. “No lugar de promover a paz, tornaram-se uma arma para travar uma batalha política. E o alvo principal, é claro, é Israel.”
As opiniões sobre a ONU dadas pelo então diplomata Binyamin Netanyahu ajudam a explicar, quase 40 anos depois, a forma como o governo israelense -hoje comandado por ele- aposta no embate com o órgão internacional que desempenhou papel crucial na formação do Estado judaico.
“Acredito que a ONU e Israel começaram a se distanciar a partir da guerra de 1967”, afirma Richard Gowan, diretor do programa de Instituições Globais do International Crisis Group.
“Nos anos 1950, Israel costumava estar do lado de países que eram ex-colônias, e era visto como um deles. Depois da Guerra dos Seis Dias [quando Israel conquistou a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, as Colinas de Golã e o Sinai], os países não-alinhados ficaram do lado do grupo árabe e se voltaram contra Israel”, afirma.
As críticas israelenses à atuação das Nações Unidas se intensificaram após os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023. Desde então, a estratégia tem sido de confronto: diplomatas israelenses trituraram a carta da ONU como protesto em 2024, acusaram órgãos das Nações Unidas de abrigarem membros do Hamas e acusaram, repetidas vezes, a organização de antissemitismo.
“Sim, alguns diplomatas e funcionários da ONU cometeram antissemitismo”, afirma Gowan. “Mas o que deve ser enfatizado é que a maioria dos Estados-membros, incluindo países que têm boas relações com Israel, acredita que a ONU tem uma responsabilidade especial para com os palestinos que é qualitativamente distinta da responsabilidade com o povo do Sudão ou do Haiti”, diz.
Os israelenses afirmam que isso é prova de tratamento injusto. “Os fatos não deixam nenhuma dúvida a respeito da obsessão da ONU com Israel”, diz Rafael Rozenszajn, major da reserva das Forças Armadas israelenses e primeiro porta-voz em língua portuguesa da corporação. Ele afirma que, nos últimos dez anos, países como o Irã, a Coreia do Norte e a Síria foram condenados apenas cerca de dez vezes, enquanto Israel foi criticado em mais de 150 votações do tipo.
Rozenszajn se refere, entretanto, a resoluções adotadas sobre a situação na Palestina por maioria simples na Assembleia-Geral da ONU, medidas que têm impacto simbólico -o veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança protege Israel de decisões tomadas por aquele órgão, que são vinculantes.
“O maior desafio de um porta-voz das Forças de Defesa de Israel é ter que lidar com acusações de uma instituição considerada imparcial e equilibrada, que não se imagina que possa ter uma obsessão contra um país”, prossegue Rozenszajn.
Para Gowan, “pode-se chamar de obsessão, mas também pode-se chamar de comprometimento”. “Eu estudo a ONU há mais de 20 anos. Em todo esse período, algumas causas ganham destaque, seja Darfur, Mianmar, a Síria, mas elas vão e vem. A situação palestina permanece uma constante, porque acredita-se que seja parte da identidade da ONU.”
Uma alta autoridade do governo israelense ouvida sob condição de anonimato pela reportagem disse que boa parte do desgaste tem a ver com o papel do secretário-geral, o português António Guterres, que termina seu mandato em dezembro.
Para essa autoridade, Guterres culpou os israelenses pelos ataques de 7 de outubro ao dizer, cerca de duas semanas depois do atentado, que ele “não aconteceu em um vácuo”, citando a ocupação do território palestino, que já dura décadas.
“Houve um erro básico de muitos membros da ONU de não mostrar empatia básica com os eventos do 7 de outubro”, avalia Richard Gowan. “Se, logo após os ataques, houvesse condenação clara do Hamas, teria sido mais fácil dizer que Israel teria que moderar sua resposta [militar].”
A relação com Guterres se deteriorou de vez quando a ONU incluiu Israel em lista de países responsáveis por violência sexual em conflitos, o que levou Tel Aviv a romper com a secretaria-geral da organização até a saída do português.
A autoridade israelense disse ainda que a burocracia da ONU se acostumou a uma posição pró-Palestina que se refletiria no funcionamento diário da organização, e que um eventual sentimento de responsabilidade não justifica o tratamento que Israel recebe. Enfatizou, entretanto, que Tel Aviv não pretende deixar a ONU, e que a postura combativa que o governo adota é uma questão de princípio.
Para Francesca Albanese, relatora especial da ONU para a Palestina, o foco das Nações Unidas na questão palestina tem um motivo simples: “Israel é protegido pelo veto dos EUA no Conselho de Segurança. Mesmo quando se olha para as resoluções da Assembleia-Geral, elas são aprovadas em um dia e violadas no seguinte. Essa produção excessiva é resultado da impunidade de Israel.”
Considerada parcial pelo governo israelense e por apoiadores, Albanese, que sofreu sanções dos EUA em 2025, diz que “não há muitos casos de uma ocupação que leva a uma colonização com apoio de países ocidentais. E a relação religiosa dos israelenses com a terra não dá a eles direito de expulsar os outros.”
A relatora, eleita pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para um mandato que termina em 2028, recomenda que Israel seja rebaixado ao papel de membro-observador, “como foi feito com a África do Sul na época do apartheid”.
Questionada se essa medida não teria o resultado de tornar Tel Aviv ainda menos receptiva à atuação da ONU, Albanese responde: “Minha recomendação não é feita com base no que é oportuno. É feita com base no que é certo.”
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