O pré-candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad afirmou nesta quarta-feira, 15, que, caso seja eleito, fará um \”pente-fino\” em todos os contratos de concessão firmados pela gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), que concorrerá à reeleição.
Em entrevista ao programa Papo com Editor, do Broadcast Político, Haddad criticou a condução da privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), apontou a existência de cláusulas abusivas e disse que a concessionária não tem sido punida.
A desestatização da Sabesp, concluída em julho de 2024 pelo valor total de R$ 14,8 bilhões, consolidou-se como o principal eixo de disputa e “guerra” de narrativas na campanha eleitoral para o Palácio dos Bandeirantes. Após a operação, o Estado permaneceu com 18% do capital da companhia, a Equatorial adquiriu 15% e os outros 67% ficaram distribuídos entre investidores no mercado financeiro.
O ex-ministro da Fazenda também criticou o atual patamar da taxa básica de juros e afirmou que o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, tem conduzido a política monetária de forma mais “cavalar” do que ele gostaria. Haddad disse que adotaria a mesma direção, mas com “outra dose”. Atualmente, a Selic está em 14,25% ao ano, patamar definido em junho, após o início do ciclo de cortes em março.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Broadcast Político: Um dos grandes debates desta eleição deve ser a privatização da Sabesp. O senhor já prometeu rever os contratos, embora descarte a reestatização. Que pontos pretende revisitar?
Fernando Haddad: No governo federal, tivemos que rever todas as concessões ferroviárias feitas por Tarcísio, com o acompanhamento do Tribunal de Contas da União, em razão do prejuízo causado ao erário. Eram contratos malfeitos, com prejuízo financeiro para a União. Em São Paulo, também não tem como não rever. Vou passar um pente-fino nos contratos porque há cláusulas abusivas e a concessionária não é punida. Vocês têm noticiado a quantidade de acidentes causados pela Sabesp, inclusive alguns fatais. A Sabesp não para de trocar hidrômetros para aumentar o lucro, que está previsto para triplicar em dois anos. Como isso é possível? É aumento de produtividade ou aumento da conta de água? É óbvio que é aumento da conta de água. A indústria paulista não se queixa publicamente porque o sistema econômico, sobretudo a Faria Lima, tem muita proximidade com Tarcísio. Esse é o meu inconformismo com a falta de visão de futuro para a economia paulista. São Paulo está perdendo tração. Deixamos, há muito tempo, de ser a locomotiva do País e estamos ficando para trás.
Broadcast Político: Sua gestão na Fazenda aprovou a reforma tributária, mas o senhor ficou politicamente marcado pela “taxa das blusinhas”. O senhor mantém essa posição ou reconhece que a taxação abriu um flanco desnecessário?
Haddad: Quem primeiro instituiu essa cobrança foram os governadores. Tarcísio cobra a chamada “taxa das blusinhas” desde antes do governo federal, assim como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e todos os demais governadores. No plano federal, quem a aprovou foi o Congresso Nacional, por unanimidade. O presidente Lula era contra. Essa foi a parcela que Lula revogou. Ele falou: “Pô, eu era o único cara contra e fiquei com a fama. Então, eu vou tirar, porque já era contra”. Não foi uma medida eleitoreira, porque ele se opunha desde o início. A imprensa não cumpriu o papel de esclarecer o que estava acontecendo, e influenciadores disseminaram a informação falsa de que a culpa era de Lula ou de Haddad. Lula acabou responsabilizado por algo que não instituiu. Acho correta a decisão que ele tomou, porque a verdade tem que prevalecer.
Broadcast Político: O senhor disse que os juros não precisavam ter chegado a 15% e que os cortes deveriam ter começado antes. Mas Gabriel Galípolo foi indicado ao Banco Central pelo senhor. Ele está errando na condução da política monetária?
Haddad: Todo mundo tem direito a uma opinião, sobretudo diante de uma instituição autônoma. Uma vez indicados, o presidente e os diretores do Banco Central não prestam contas a quem os indicou, mas à sociedade. Esse é o princípio da autonomia. Quando digo que teria conduzido a política monetária na mesma direção, mas com outra dose, não estou dizendo que era preciso baixar os juros enquanto eles subiam. Acho que, após a decisão de elevar a taxa em 300 pontos-base, em dezembro de 2024, seria possível parar em 14,25% e observar os efeitos. Na minha opinião, o resultado seria alcançado da mesma forma e os cortes poderiam ter começado antes. Não estou dizendo que a direção da política monetária estava incorreta. Eu teria ministrado uma dose menos cavalar.
Broadcast Político: O senhor tem conversado com Galípolo? Manda uma mensagem para ele, chama para jantar? Vocês eram amigos, não é?
Haddad: Não, eu estou há muito tempo fora do cargo.
Broadcast Político: Como está a relação de vocês hoje?
Haddad: Está tudo normal, não tem nada.
Broadcast Político: Mas vocês se encontram? Porque circula a informação de que vocês romperam.
Haddad: Não existe isso. Isso é bobagem.
Broadcast Político: Vários integrantes do governo defendem rever o arcabouço fiscal, com a redução do limite de crescimento real das despesas de 2,5% para 2%. Essa mudança seria suficiente para garantir a sustentabilidade das contas públicas?
Haddad: A arquitetura do arcabouço fiscal é muito moderna e, no meu entendimento, não deveria ser alterada. O que pode ser ajustado são os parâmetros: quanto do aumento da receita será destinado à despesa, qual será o teto de crescimento dos gastos e qual será o piso anticíclico. O Brasil precisa continuar reconstruindo o superávit primário. Recebemos o País com déficit de 2% e um problema de R$ 200 bilhões em 2023. Neste ano, é possível fechar o Orçamento equilibrado e, no próximo, obter um pequeno superávit. Sou favorável à continuidade dessa trajetória. Essa política preserva a população de baixa renda e os programas sociais, sem comprometer o crescimento.
Não tenho hoje um número específico para o limite de crescimento das despesas. É preciso fazer as contas. Isso exige engenharia política e negociação com o Congresso.
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