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Europa se prepara para terceira onda de calor; adaptação e mortes preocupam

JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – Nas últimas semanas, Portugal foi relativamente poupado da segunda onda de calor, a mais severa da história, que assolou a Europa. Essa sorte, disseram cientistas, já acabou. A terceira canícula do ano já se instala no continente, levando Lisboa a decretar alertas, tomar medidas e a solicitar ajuda dos vizinhos para conter incêndios florestais.

“Situação excepcional”, afirmou o primeiro-ministro, Luís Montenegro, ao justificar um pedido antecipado de suporte aéreo para Marrocos, Espanha e União Europeia. Quase 3.000 bombeiros foram mobilizados, proibições na agricultura e no manejo de florestas entraram em vigor. Com termômetros a 40°C em algumas regiões, seis pontos de queimada já eram combatidos desde sexta-feira (3).

Montenegro segue à risca o roteiro adotado pela maioria dos governantes europeus no mês passado, o junho mais quente da história no Reino Unido, na França e na Suíça. Trata-se de ação antes de qualquer tipo de discussão. Paris foi o exemplo mais eloquente. Impôs uma série de restrições na cidade, da circulação de veículos à venda de cerveja.

E com uma justificativa simples: os hospitais estavam lotados.

“Uma das grandes mudanças que vimos nos últimos dez anos e estamos confirmando agora em muitas partes da Europa é a transição do calor como ameaça pessoal, de algo que você lida individualmente, para o calor como ameaça pública”, diz Ruth Engle, cientista de dados do World Resources Institute (WRI).

“Há muitas oportunidades para ação pública. O mais importante é entender como e onde as pessoas estão expostas ao calor. Pode ser em casa, enquanto se deslocam pela cidade e com frequência em seus locais de trabalho. Pode ser nas escolas também. Em todos esses lugares, é preciso tomar medidas para protegê-las.”

Em 2025, explica a especialista, houve mais mortes causadas pelo calor extremo do que por acidentes de trânsito. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), ondas de calor são os eventos climáticos extremos que mais matam no planeta atualmente.

Houve um excesso de 2.025 mortes na França de 22 a 28 de junho, um acréscimo de 29,1% em relação à semana anterior. Os números continuam subestimados, mas já dão sinais claros de quem mais sofre com o calor e onde: 85% dos mortos tinham acima de 65 anos; 62% habitavam a Île-de-France, que engloba a região metropolitana de Paris.

Assim como a massificação do ar condicionado dominou debates parlamentares por todo o continente, a contabilidade dos óbitos virou objeto de disputa entre o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, e integrantes do Les Écologistes, o partido verde do país.

Durante sessão da Assembleia Nacional, o premiê classificou de “escandalosa” a projeção feita pelos rivais políticos de que o número de vítimas poderia chegar a 10.000.

Isso colocaria a projeção próxima da histórica onda de calor de 2003, quando quase 15 mil franceses morreram. Naquele verão, o excesso de mortes provocadas pelo clima extremo chegou a 70 mil na Europa. Desde então, muitas mudanças foram adotadas, a começar pelos alertas de eventos extremos, protocolos e gatilhos legislativos _leis e capacidades que entram em vigor a partir de determinada circunstância.

“Há muitos exemplos. E uma coisa realmente boa sobre as medidas contra o calor é que pequenos passos podem se somar uns aos outros”, afirma Engel. “Amsterdã, por exemplo, está investindo em mais sombra, não importa se de árvores ou de construções. Barcelona está colocando centros de resfriamento nos locais mais quentes da cidade.”

Em Atenas, sistemas de alerta precoce estão sendo implementados para ajudar a população a se informar, acessar recursos e saber quando e como agir. Berlim vem fazendo campanhas de conscientização pública, passo modesto, na opinião do Partido Verde local, que pede o modelo espanhol de centros de resfriamento em prédios com ar condicionado, como museus e repartições públicas.

Engel reconhece que o processo tem muitos atritos, mas pondera que a perspectiva geral é positiva. “Por toda a Europa, temos visto reações que considero promissoras. E agora, à medida que as ondas de calor regionais e continentais se intensificam, será preciso começar a reunir parte do conhecimento desses diferentes programas e elaborar um plano mais regional para lidar com o calor em toda a Europa.”

A prontidão dos governos na adaptação às mudanças climáticas mostra que apenas reconhecer a ocorrência do aquecimento global, provocado sobretudo pela queima de combustível fóssil, não é mais suficiente.

A exigência já é saber o que será feito para mitigar termômetros que estacionam em temperaturas acima dos 30°C. No fim da segunda onda, Alemanha, Polônia, República Tcheca, Eslováquia e Hungria superaram recordes anuais de temperatura absoluta.

No começo da terceira, incêndios atingem não apenas Portugal, mas também Espanha, sul da França e Grécia. Há secas na Itália e na Alemanha. E há otimismo, diz Engle.

“Uma das coisas que minha equipe faz com frequência é utilizar conjuntos de dados que mostram intervenções bem-sucedidas e que podem ajudar a orientar o planejamento local e o de outras cidades. Cidades aprendendo umas com as outras, países aprendendo uns com os outros. Isso já faz uma grande diferença.”

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Fonte: Notícias ao Minuto

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