LÍVIA GOULART
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Ano de Copa do Mundo é o momento em que a venda de produtos ligados ao Mundial e à seleção ganham destaque. Mas também é período de aumento na circulação de produtos falsificados.
Além de camisas, bonés e outros itens temáticos, figurinhas do álbum oficial são alvo de pirataria e venda irregular em espaços públicos e na internet.
Em São Paulo, a consultora de vendas Camila Marta, 32, conta que achou que estaria fazendo um bom negócio ao comprar pacotes de figurinhas por R$ 5 cada de um ambulante, na estação Sé do Metrô. O preço, inferior aos R$ 7 cobrados pela editora Panini, que produz o álbum, chamou a atenção.
A suspeita de que as figurinhas eram falsas surgiu quando ela começou a abrir os envelopes e encontrar diversas imagens iguais. “Quando abri o primeiro pacote não percebi, mas depois vi que não estava normal”, diz.
Segundo Camila, as figurinhas tinham acabamento irregular, impressão fosca e cortes mal feitos. “Era uma de cada tamanho. Algumas nem tinham a numeração correta do álbum.”
A Panini recomenda que os consumidores priorizem a compra em pontos de venda autorizados, físicos ou online, e desconfiem de ofertas com preços muito abaixo do valor oficial. A editora também afirma que oferece um pacote de figurinhas lacrado de maneira uniforme em toda a extremidade, o que deve ser um ponto de atenção.
A assessoria do Metrô de São Paulo afirma que faz rondas contínuas para frear a venda irregular de produtos em estações e trens, já que o comércio ambulante é proibido em suas dependências. A empresa também informa que já apreendeu figurinhas comercializadas sem autorização dentro da rede de transporte, embora em menor quantidade.
A ABCF (Associação Brasileira de Combate à Falsificação) diz que o Brasil vive uma crescente do mercado ilegal no país, em um recorde de perdas para empresas e cofres públicos.
No último ano, os prejuízos relacionados à falsificação, contrabando e pirataria passaram de R$ 514 bilhões, segundo o Anuário da Falsificação de 2026, publicado em maio pela associação.
De acordo com o levantamento, bebidas alcoólicas lideram o ranking de prejuízos, com R$ 89,5 bilhões, seguidas pelo vestuário, com R$ 55 bilhões. Também aparecem entre os setores mais afetados combustíveis (R$ 30 bilhões), perfumaria (R$ 22,8 bilhões), defensivos agrícolas (R$ 22 bilhões) e medicamentos (R$ 16,8 bilhões).
Só em maio, uma operação do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) apreendeu cerca de 85 mil álbuns e figurinhas falsificadas da Copa, além de 2.000 camisas de seleções. O material foi encontrado em regiões de comércio popular da capital paulista.
A missão de completar o álbum também movimenta valores significativos. Colecionadores estimam que o gasto com as figurinhas varia entre R$ 1.200 e R$ 1.400 para completar uma edição da Copa do Mundo, considerando a compra de pacotes e a necessidade de trocas. Sem trocas, o valor pode chegar a R$ 7.362,90.
Algumas figurinhas têm valor maior no mercado paralelo, onde os cards são vendidos individualmente. Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que figurinhas especiais de craques, como o português Cristiano Ronaldo e o argentino Lionel Messi, chegam a ser anunciadas por até R$ 2.000 em plataformas de venda.
Além dos produtos físicos, especialistas fazem alerta para o avanço dos golpes online. Uma pesquisa da empresa de cibersegurança Kaspersky identificou aumento de 720% no número de sites fraudulentos que simulam a venda de figurinhas da Copa. Até meados de maio, a empresa contabilizou ao menos 164 domínios falsos, ante cerca de 20 registrados em abril.
Segundo a Kaspersky, os sites reproduzem o visual de lojas oficiais, incluindo carrinho de compras, cálculo de frete e seções de produtos relacionados, para transmitir credibilidade. Alguns utilizam até CNPJ, endereço físico e contatos falsos no rodapé.
Um levantamento da NordVPN, provedor de serviços de rede privada virtual, diz que 34% dos brasileiros que usam internet relataram contato com fraudes relacionadas à Copa do Mundo nos últimos dois anos.
COMO IDENTIFICAR UMA FIGURINHA FALSA
Uma pista é o preço. A Panini vende os envelopes com sete figurinhas por R$ 7. Na venda de produtos falsificados, porém, são comuns ofertas por valores menores ou promoções que prometem grandes descontos.
Também é possível observar diferenças no acabamento. As embalagens falsas costumam apresentar papel mais grosso e poroso, impressão mais opaca e lacres irregulares.
O administrador financeiro Leandro Fonseca, entusiasta das figurinhas há mais de dez anos, conta que já recebeu itens falsos sem perceber de imediato. Segundo ele, diferenças na numeração e a ausência de códigos presentes nas versões originais estão entre os indícios mais comuns.
A qualidade da impressão costuma ser uma das principais diferenças em relação aos produtos originais, afirma o delegado Victor Tuttman, da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial. Podem aparecer falhas de impressão, variação de tamanho, baixa resolução e problemas de acabamento.
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