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Putin admite impacto de ataques de Kiev, e tensão cresce

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em uma rara admissão do impacto dos ataques com drones ucranianos contra a Rússia, o presidente Vladimir Putin disse nesta terça-feira (23) que as ações de Kiev visam “desestabilizar a sociedade russa e criar incertezas sobre as Forças Armadas”.

Embora a afirmação seja um truísmo, não é algo trivial por parte de Putin e demonstra que a escalada contra alvos cada vez mais distantes no território russo e no entorno de Moscou preocupa o longevo líder do Kremlin. Ele também pediu mais medidas de proteção às cidades de seu país.

Putin falava a cadetes de academias militares em um evento na sede do governo. Como seria previsível, manteve o discurso otimista em relação ao campo de batalha na Ucrânia, país que invadiu em 2022 e do qual controla cerca de 20% dos territórios.

Disse também que as ondas de ataques contra alvos civis impossibilitam o diálogo contra Volodimir Zelenski, obviamente sem citar os bombardeios russos contra o vizinho. Nesta terça, três pessoas morreram em Krivii Rih, cidade natal do presidente ucraniano.

Mais tarde, numa reunião de governo, Putin disse que aceitaria conversas com base nos acordos que se desenhavam em março de 2022 em Istambul, no primeiro mês da guerra. Com incentivo ocidental, Zelenski os deixou por serem favoráveis aos russos.

O foco da guerra assimétrica de Kiev, que ganhou o reforço de mísseis de cruzeiro que analistas não sabem se são os Flamingo ucranianos ou uma nova leva de modelos Storm Shadow/Scalp-EG franco-britânicos, tem sido o sistema energético russo.

É uma forma de compensar o aumento das receitas do Kremlin com petróleo, que aumentaram a níveis recordes desde 2022 com a suspensão de sanções americanas para compensar o impacto no preço global devido à guerra no Irã.

De acordo com consultorias, a produção de refinarias russas e a exportação do produto cru foram afetadas de maio para junho, caindo respectivamente 25% e 15%. Na segunda, segundo o jornal econômico Vedomosti, o governo fez uma reunião para discutir a importação de alguns derivados.

“A situação é complexa”, disse nesta terça o czar do setor, Alexander Novak, que afirmou considerar veto à exportação de diesel, o que afetaria diretamente o Brasil, e confirmou o uso de reservas estratégicas.

Há falta de gasolina e racionamento em regiões mais distantes do país, como em Khabarovsk, no Extremo Oriente. Mas a situação mais preocupante para o Kremlin é na Crimeia, península anexada da Ucrânia em 2014.

Segundo o governador de Sebastopol, principal cidade da região e que tem status autônomo, o transporte público está fechado a partir das 22h, enquanto cafés, lojas e restaurantes têm de cerrar as portas às 20h. As luzes da cidade, que como sede da Frota do Mar Negro é atacada por mísseis e drones, estão sendo diminuídas durante a noite, para dificultar a aquisição de alvos.

Nesta terça, os ucranianos também disseram ter atingido uma ponte ferroviária ligando a região ocupada de Kherson, no sul do país, à península. Ainda não se sabe o tamanho do eventual estrago. O impacto pode afetar um dos trunfos de Putin até aqui: a ligação direta por terra entre a Crimeia e a Rússia, antes feita apenas pela vulnerável ponte do estreito de Kertch.

Com o cenário tenso e sem avanço nas negociações, paralisadas desde que seu patrono, o presidente americano Donald Trump, voltou-se para o Irã, a escalada de lado a lado parece inevitável. E Kiev tem buscado um golpe simbólico contra Moscou, que sofreu o maior ataque da guerra na semana passada e reforçou suas baterias antiaéreas.

O comportamento de Putin é acompanhado com apreensão pela elite do país. Segundo a Folha de S.Paulo ouviu de uma pessoa próxima do Kremlin, o temor corrente é que os generais convençam o presidente de que é necessário o emprego de uma arma nuclear tática contra os ucranianos, visando sua submissão.

Armas táticas em tese são menos potentes e desenhadas para uso em campo de batalha, mas a opção nuclear geraria uma crise global sem precedentes -apenas os EUA explodiram duas bombas em conflito, contra o Japão em 1945.

Tão ou mais preocupante é a alternativa citada por uma segunda pessoa com acesso ao centro do poder: uma ação militar contra algum Estado Báltico, visando levar a crise para a aliança militar Otan num momento em que Trump está em processo de desengajamento do clube.

Esse cenário já era citado no ano passado como provável, mas num prazo mais longo. Agora, se a desestabilização citada por Putin vier a se confirmar, empresários e integrantes do governo creem que os militares da linha mais dura podem convencer o presidente a alguma ação.

Há, claro, o fator ameaça em tudo isso. Por ora, o independente Centro Levada mediu um apoio de 74% ao conflito entre os russos em maio, seis pontos a mais que no mês anterior. Mas a popularidade altíssima de Putin, 79%, deslizou também os mesmos seis pontos desde dezembro.

Ameaçar deu certo em vários momentos -Putin sugeriu retaliação nuclear contra apoio direto ocidental a Kiev desde o primeiro dia da guerra, o que manteve limites à ajuda. Nesta terça, coube ao influente vice-chanceler Serguei Riabkov jogar iscas sobre o tema.

À agência Interfax, o diplomata disse que os EUA estão se afastando dos compromissos que Moscou diz terem sido assumidos, em termos favoráveis aos russos, na cúpula entre Trump e Putin no Alasca, em agosto do ano passado.
Além disso, afirmou que as forças russas estão acompanhando os exercícios militares poloneses perto do corredor de Suwalki, junto à Lituânia.

Ele é o caminho mais curto entre Belarus, aliada do Kremlin, e do exclave russo de Kaliningrado. Em todas as simulações de conflito de lado a lado, um ataque russo em Suwalki, cortando a Otan dos países Bálticos, é visto como provável.

Mantendo a temperatura alta, na segunda (22) os russos voaram uma usual missão de patrulha estratégica no Ártico com bombardeiros de ataque nuclear Tu-160, que foram interceptados por caças F-35 noruegueses.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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