LEANDRO MACHADO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um ciclista liga a câmera. Enquanto ele acelera, uma batida de funk entra como trilha sonora do vídeo. O cantor faz uma exaltação à gangue paulistana: “É o cinco cinco!”. Na calçada, ele vai em direção a um pedestre, que mexe no celular, distraído. Com um movimento rápido, subtrai o aparelho e deixa a vítima para trás. Publicado no Instagram, o vídeo de apenas 15 segundos termina com um verso: “Na cidade, é nóis que manda em todo lugar que passa”.
Nas últimas semanas, a reportagem encontrou dezenas de publicações de perfis no Instagram com cenas de furtos e roubos ocorridos nas ruas de São Paulo. O detalhe insólito é que tudo é gravado e registrado pelos próprios autores dos delitos ou por comparsas que testemunham tudo a uma pequena distância.
Em sua maioria, o material mostra homens jovens, muitos aparentando serem menores de idade, atacando as vítimas com bicicletas, quebrando vidros de carros para roubar os ocupantes e furtando correntinhas de pedestres. Em músicas, legendas e no próprio nome dos perfis, o material costuma citar o número 55, uma referência ao artigo 155 do Código Penal, ou seja, o crime de furto. Um dos vídeos teve mais de 200 mil visualizações.
Além do material produzido nas ruas, os perfis também expõem imagens das vítimas armazenadas nos aparelhos. Em um deles, uma jovem gravou vídeos curtos brincando com o filho bebê, que estava começando a engatinhar. Em outro, um soldado do Exército posa na frente de um espelho, fardado e segurando uma arma. Também há fotos de um idoso gargalhando enquanto carrega oito pilhas de notas de R$ 100 em frente a um cofre.
Uma das vítimas expostas no Instagram é o especialista em logística Rafael Garcia, 30, que foi atacado por um homem quando parou seu carro no semáforo do cruzamento rua da Consolação com a avenida Paulista, na noite de 27 de agosto do ano passado.
“Eu tinha deixado o celular em cima do painel para acompanhar o GPS. Estava distraído e me assustei com o barulho do vidro quebrando. Quando percebi, ele já estava dentro do carro. Caí na besteira de tentar segurá-lo, mas ele deu um soco no meu olho. Também cortei a mão com o vidro. Foi desesperador”, conta.
Na mesma noite, um vídeo com imagens dele e da namorada na piscina de seu prédio e tomando um drink em um bar foi postado na rede social. Rafael ficou sabendo da publicação pela Folha de S. Paulo. Ela continuava disponível até a tarde desta sexta-feira (17) em vários perfis com alusões ao número 55. A reportagem conseguiu encontrá-lo porque, durante o vídeo, aparece uma mensagem de banco com o nome completo dele.
“Fiquei bem paranoico, porque quem me roubou teve acesso aos meus dados, fotos de família e às minhas rotas de GPS para casa”, diz. Para tentar diminuir o risco de ser assaltado de novo, Rafael instalou no carro a chamada “película antifurto”, que promete deixar as janelas mais resistentes a ataques externos.
Os perfis da gangue do 55 também ostentam os celulares furtados e o dinheiro arrecadado com os crimes. Um dos vídeos mostra uma bolsa com 18 celulares, a grande maioria modelos de iPhone. Também há fotos de jovens e até de crianças posando com vários aparelhos e maços de notas de R$ 100. Alguns aparecem com o rosto tapados por balaclavas, mas outros preferem não se esconder.
Parte das publicações também faz provocações às vítimas com frases escritas na tela. Uma inscrição frequente é localizar o vídeo na cidade de Moscou. “Moscou, nóis levou”, completa. Outra publicação de um jovem mascarado com o número 55 no perfil faz uma crítica à sociedade: “Alguém sempre chora pro menor sorrir. Queremos igualdade nessa sociedade hipócrita. Enquanto não houver Justiça no gueto, os ricos não terão paz”.
Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública, a capital paulista registrou 154.058 furtos e roubos de celulares no ano passado, uma média de 422 crimes por dia. Para David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as publicações da gangue do 55 apontam para uma “cadeia produtiva deste tipo de crime” na qual os jovens e adolescentes estão na posição de “linha de frente”.
“Esses aparelhos são repassados a outras pessoas, e alimentam um mercado paralelo de peças. Muitos também são enviados para outros países, onde são desbloqueados e revendidos”, diz. Para Marques, a exposição dos ataques e a ostentação nas redes sociais mostram uma “subcultura do crime”.
“Esse fenômeno da exposição ocorre com algumas atividades criminosas, como estelionato e crimes de ódio. É uma geração que já nasceu conectada à internet e às ferramentas digitais, enquanto as autoridades policiais ainda estão engatinhando. É um desafio muito grande para a segurança pública e também de supervisão das plataformas de redes sociais”, diz.
Em nota à reportagem, a Meta, dona do Instagram, afirmou que as políticas da empresa “não permitem o uso de nossos serviços para promover atividades criminosas ou conteúdos que glorifiquem, apoiem ou representem organizações e indivíduos perigosos”. A Meta também disse que incentiva denúncias de “conteúdos contrários aos padrões da comunidade”, e que colabora com as forças de segurança “nos termos da legislação aplicável.”
Já a pasta da segurança pública, da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que as “forças de segurança mantêm atuação constante e integrada na redução de crimes patrimoniais e no enfrentamento qualificado às cadeias de receptação”.
Em nota, a secretaria apontou para uma queda de 7% no número de roubos e furtos de celulares no primeiro bimestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2025. “O resultado decorre do reforço do policiamento ostensivo, da ampliação das investigações e do uso de inteligência e tecnologia para identificação de autores e desarticulação de esquemas criminosos”, diz a pasta.
Leia Também: Justiça condena jovem que armou estupro coletivo contra adolescente






Publicar comentário